Sentidos
- palavrasbrutas
- há 2 dias
- 2 min de leitura

Primeiro a internet tirou meu direito de tocar. Deixei de tocar meus discos e seus encartes, de abraçar meus amigos, de discar para conversar no telefone com meus avós, de jogar bola na rua ou games com amigos. Tudo virou streaming, mensagens instantâneas e frias, vídeo games sem companhias. Depois tirou meu direito de cheirar. A comida que escolhia para comer, o perfume que escolhia pra comprar, as plantas que decidi não plantar. Tudo virou ifood, icloud, icredo, e o concreto era cada vez mais concreto, cinzento. Logo, perdi a vontade de comer. Tudo era só comprar e não experienciar. A comida já não tinha afeto, e o gosto só determinava a quantidade de estrelinhas pra avaliar no app. Daí fui perdendo a visão. Só conseguia olhar em tela, do pc pro celular, do celular pra televisão, da televisão pra cama. A vida real ficou turva, embaçada, distante. E com tanta opinião, perdi o jeito de ouvir. Vozes sem gente, monólogos sem empatia. Escutar ideias, percepções, perspectivas, tudo virou um bicho de sete cabeças, pessoas comuns se tornaram monstros, e os verdadeiros demônios eu perdi de vista.
Com o tempo parei de sentir. E agora, a inteligência artificial consegue até pensar por mim.
Aos poucos Tudo que era humano em mim se desfez.
E agora apenas existo.
Não mais pergunto sobre o caminho. Tampouco indago a funcionária sobre como sacar aquele velho papel.
O céu ficou ainda mais distante.
Sem tato para ouvir, sem voz para digitar, sem olhos para sentir, sem cheiro para amar.
Uma vida incolor, inodora, insípida, insossa.
Se já não penso, nem sinto, eu ainda Existo?
O que está pensando hoje?
Off
Caio Resende

Apenas
um
homem
cansado
à
procura
de
abrigo.
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