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Os tempos na vila

  • palavrasbrutas
  • 23 de jan.
  • 2 min de leitura
banco de imagens do wix
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Eu tenho saudade de quando atravessava a cidade olhando pros outdoors e ainda não sabia ler, então só via símbolos estranhos que não me diziam nada além das cores gritantes e rostos felizes.


Era o mais próximo da viagem de férias, pois as ruas não tinham asfalto, as casas tinham cercas e não muros, os varais eram apoiados por toras de madeira.

Eu me lembro que essa viagem era pra ir na casa do meu herói, meu primo que ouvia hip hop e falava que pegava as garotas.


Eu me lembro do pequeno córrego que ia pegar peixes que na verdade eram filhotes de sapo. Me lembro de enquanto cavava o chão para pegar mandioca e vi pela primeira vez uma cobra e como era aterrorizante aquele animal deitado entre os pés de mandioca e o saber notório que naquele momento ela não era perigosa porque estava com a barriga estufada de se alimentar de algo.


Eu me lembro do quintal que dava vista pra um campinho que entre os cabelos estilo Ronaldinho e os fuzis, a gente jogava bola sem distinção entre quem tinha ou não escolha de ser criança.


Me lembro da primeira vez que vi um 38 e não tive coragem de pegar nas minhas mãos.


Me lembro de plantar milho, ver eles crescendo, mas nunca tive oportunidade de comer.


Me lembro de um senhor que sempre me cumprimentava, e que voltando outra semana sua casa não tinha nem mais as telhas, e me disseram simplesmente que ele “devia”, depois imaginei que não devia mais.


Eu me lembro de acordar cedo e ver só as pontas dos cigarros acessos embaixo do pé de manga.


Do trem que passava ao fundo com seu barulho único, assim como o barulho único que fazia a gente ter que deitar no chão.


Os tempos da vila, a caminhada pra cachoeira.


O anúncio sobre olhos vigiados de cima de casa que a gente tava ali pra visitar minha tia que ali morava.


Me lembro de tudo e de nada, e quando vejo um rosto que lembra meu antigo herói que hoje é só uma foto e um constante lembrete de que minha tia sente saudades.


Me lembro que jogando bolinha de gude, naquela empolgação, corri e bati a cabeça tão forte naquela tora que estava escondida pelo lençol no varal.


Os tempos da vila eram mágicos por meu eu pequeno, e insano de falar sobre nas rodas de conversa civilizadas de hoje.

Edvaldo Ferreira


Criador do Palavras Brutas, escritor amador de ocasião.

Em busca de entender o que sinto através da palavras, ou se não, em busca da jornada constante de autoconhecimento e afeto próprio.

Fascinado com cinema e música.


Futuro agitador cultural.   

 


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